terça-feira, 19 de novembro de 2013

As estranhas reflexões de Barganhas, Pepe e Salazar

Caía a tarde quando Salazar entrou no bar. Tirou seu sobretudo e seu chapéu coco, limpou-se da fina neve que precipitava, pendurou as roupas que não iria usar no cabide do local e se sentou próximo à janela. O estabelecimento era simples, à moda francesa de caffé. Logo que se aconchegou, o garçom ligeiramente o atendeu:
- O que pede hoje, Dr. Salazar?
- Pode me trazer uma dose de Johnny, sem gelo.
- É pra já, Doutor – falou o rapaz, afastando-se da mesa ao mesmo tempo em que anotava outro pedido.
Salazar era alto e branco. Tinha olhos claros e cabelos cinza. Era claramente descendente de europeus. Apesar da aparência senil, possuía um vigor juvenil, como se acabasse de entrar nos louros da mocidade.
Tão cedo seu copo chegou o homem provou um gole da bebida; ela desceu suave e flamejante pela garganta, lavando o cansaço e irritação de um dia inteiro de trabalho.
Antes que pudesse abrir o jornal no caderno de esportes, Salazar ouviu o sino do bar tocar – sinal de que a porta estava a se abrir. Avistou um amigo de longa data; um companheiro fiel às noites de sextas com quem há tantos anos dividiu mesas, gargalhadas e bebidas na madrugada boêmia.
- Barganhas! Está atrasado homem. O trânsito o pegou? – cumprimentou Salazar, já se levantando para dar espaço ao amigo.
- Ora, Dr. Salazar... Este pobre coitado foi pego de surpresa por essa tremenda nevarada! Quem diria que nesta terra poderia nevar?! – disse o outro, limpando seu sobretudo e sua boina, repetindo o ritual de Salazar.
Os dois apertaram as mãos. Barganhas se sentou e acenou ao garçom:
- Guri! Ou, Guri! Traga-me uma boa dose de Velho Barreiro. – pediu para o mesmo garçom que atendera Salazar.
Barganhas vestia roupas simples, de trabalhador braçal. O homem era alto e viril. Aparentava carregar um pouco mais de 20 anos de história, embora possuísse bem mais que isso. Era branco com cabelos negros e curtos e olhos escuros.
A mesa continha quatro lugares; dois de cada lado. Salazar sentou-se de costas para janela e encostou-se no vidro para ler seu jornal; de modo que pudesse ver tanto Barganhas que sentou do outro lado da mesa, de frente para a porta, quanto a entrada do estabelecimento.
No caderno de esportes, Salazar leu que o XV de Piracicaba era campeão da Libertadores.
Mais uma vez o sino da porta soou. Uma figura baixa e esguia entrou no boteco. Tirou o traje de frio – aquele mesmo que os outros dois vestiam – e seu chapéu; limpou a neve e pendurou no cabide para os clientes, próximo aos de Salazar e Barganhas.
- Vejo que só faltava eu. – disse ele, apertando as mãos dos dois que ali se encontravam.
- Chegou em boa hora. Acabei de ler que XV foi mesmo campeão da Libertadores... – disse Salazar, um tanto intrigado.
- Pepe, quer beber algo? – perguntou Barganhas, acenando para o garçom.
- Quero um gole de Stock e uma porção de fritas – pediu diretamente ao funcionário, que já se encontrava prontamente ao lado da mesa.
- Pepe, veio da Paulista? – perguntou Salazar.
- Sim, Doutor. Estava um caos... A neve se acumulou da estação Consolação até a altura do Shopping Paulista.
- Caralho! – soltou o palavrão; Salazar o fazia espontânea e corriqueiramente.
- Como pode aqui em São Paulo nevar? – indagou Pepe. Foi uma pergunta às paredes.
O pedido de Pepe foi servido à mesa, juntamente com a bebida que foi colocada bem na frente do pires de batatas fritas.
Pepe era um senhor, bem mais velho que os outros ali sentados. A vida dura já lhe dera um tempo; já alimentou seus filhos, foi fiel à sua falecida esposa –quando ainda vivia – e se jogou na carreira pública, sempre idôneo e honesto. Agora, aproveitava os bons momentos de sua aposentadoria.
A internet não funcionava em lugar nenhum e os meios de comunicação telefônicos ficaram prejudicados. A estrutura da cidade não foi projetada para aguentar uma nevasca, como há alguns dias acontecera. A televisão via satélite ainda funcionava, mas muito custava às Redes se manterem operando; então decidiram passar apenas os programas de maior audiência e os jornais. Já os canais a cabo, nem mesmo operavam.
- Pepe, ouviu o que falei? – perguntou Salazar.
- O que? Sobre o XV? Sim, mas preferi não acreditar. – respondeu o senhor.
- Pode acreditar, Pepe. Está aqui, olha... – intimou-o para olhar o jornal.
Quando teve em mãos o caderno, percebeu que o XV ser campeão da Libertadores era a menor das surpresas.
- Salazar, você viu essa notícia aqui? – apontou para uma coluna no canto, que tinha letras miúdas; como se fosse uma notícia de menor importância, ou até mesmo de nenhuma.
- Deixe-me ver. – puxou os óculos do bolso para melhor enxergar aquelas letras.
Lia-se na coluna o seguinte:

Clube de Regatas Flamengo é extinto oficialmente hoje pela sua diretoria. O Time 5 vezes campeão do Campeonato Brasileiro caiu para a série de acesso à série C e não possuí torcida. Os jogadores faltaram ao último jogo, já que estavam jogando apenas como hobbie e, segundo eles, compromissos mais importantes os impediram de comparecer.
O Presidente da CBF disse, em nota, que é uma pena que a tradição do futebol brasileiro esteja desaparecendo; mas agora se deve dar enfoque às conquistas do XV que tenta revigorar o esporte nacional.

- Do que se trata, Salazar? – indagou Barganhas, curioso para descobrir o que gerou aquela cara de espanto do amigo.
- Flamengo não existe mais... A diretoria extinguiu o time. – respondeu abismado.
Barganhas comeu uma batata e engoliu sem pensar a bebida de uma só vez. Pasmo, recolheu-se na cadeira e ficou pensativo por um tempo.
- Vocês não acham que tem algo errado acontecendo? – disse Salazar, franzindo a testa.
- Não sei... Tudo aconteceu tão naturalmente. Como as coisas chegaram a esse ponto? – questionou Pepe, indignado.
- Que maluquice. – concluiu Barganhas.
Após o comentário, perceberam que na loja da frente acontecia um assalto. O curioso era que o ladrão se trajava de um personagem de histórias de quadrinhos. Todas as pessoas que passavam na rua não deram atenção ao que acontecia bem ali; algumas até viram, mas simplesmente ignoraram.
Os três olharam uns para os outros, chamaram o garçom e pediram mais um pouco das respectivas bebidas.
Por um tempo, ficaram quietos, fitando as paredes, porém com pensamentos bem além dos limites de concreto. A mesa estava quieta como nunca antes ficara.
- É isso! Esse mundo está louco! – sugeriu Barganhas.
- O que? – perguntou Pepe.
- É... Alguma coisa aconteceu no mundo que ninguém sabe explicar, mas está causando essa loucura toda. – explicou.
- Louco... – sussurrou Salazar.
Essa palavra ecoou na mente dos três. Ali permaneceram fixos, olhando para o nada e pensando sobre a palavra.
- Não, Barganhas... Acho que nós é que estamos loucos. – disse Pepe.
- Nós três? – indagou Salazar.
- Sim. – respondeu.
- Como assim? – inquiriu Barganhas.
- Veja, lá fora, todos andam calmamente. Aqui dentro, várias pessoas leram o caderno esportivo e ninguém achou estranha a notícia do fim de um time como o Flamengo estar exposta numa coluna no canto de página em letras miúdas além de nós. – explicou Pepe.
- Então, por não estarmos ignorando isso é que somos loucos? – questionou Salazar.
- Sim. – respondeu o indagado.
Os drinks chegaram juntamente com mais uma porção de fritas. Pepe não se lembrou de ter pedido mais fritas, mas não se importou com o erro.
- Eu não sou louco, porra nenhuma! – reclamou Salazar, num lapso de pensamento.
- E o que é ser louco, meu caro? – replicou Pepe.
- Ser louco... – filosofou Barganhas – Ser louco é como olhar uma realidade que ninguém mais vê. É ver a verdade como ela realmente é. É como olhar para uma janela que todos dão as costas.
- Ver uma janela que todos dão as costas... – repetiu Salazar, olhando para a janela atrás de suas costas.
Beberam mais do álcool que foi servido e comeram mais da gordura oferecida. Observaram bem o garoto que os serviu, que distraído limpava o copo que acabara de pegar da outra mesa.
Os três ficaram alguns segundos olhando para janela pensando em toda aquela situação.
- Se lembram de quando foi que começou a nevar em São Paulo?  - perguntou Pepe.
- Não foi ontem? – tentou Barganhas.
- E que dia é hoje? – disse Pepe.
Na tentativa de responder a questão, Salazar procurou no jornal o cabeçalho. Não havia data no jornal.
- Será que somos mesmo os loucos? – indagou Salazar, bastante assustado.
- Não sei... – falou Pepe – Quem garante que somos reais? Quem garante que você não é uma projeção fictícia do meu cérebro ou eu sou uma projeção do seu?
As batatas fritas estão muito boas” pensou Barganhas. Olhou para cada uma delas e se perguntou se o sabor de todas elas era real. Todos aqueles acontecimentos não faziam sentido, nada tinha uma explicação lógica. E Barganhas só conseguia pensar em como aquelas batatas fritas estavam saborosas.

                        - É certo, então... – concluiu Barganhas – Nós é que somos loucos.
- Sim. – concordou Pepe.
- Ok. – corroborou Salazar.
- O que faremos então? – problematizou Barganhas.
Todos se entreolharam e beberam mais um gole de seus drinks. As fritas acabaram e a neve se intensificou.
- Não podemos apenas aceitar a loucura? – questionou Salazar.
- Acho que sim. – disse Pepe.
- Aceitemos a verdade, então. – determinou Barganhas.
Após alguns segundos de silêncio, a luz do bar se apagou; um breu tenebroso se alastrou pelo local. Uma luz se acendeu em cima dos três amigos, mas suas roupas estavam diferentes; viram-se cada um com uma camisa branca e calça igualmente branca.
A mesa também foi iluminada, mas agora não era mais de madeira, e sim de metal; as pontas eram redondas e a superfície era fria e cinza. Via-se em cima dela um amontoado de copos descartáveis jogados e alguns remédios espalhados.
Logo o ambiente todo se iluminou; os três amigos viram-se numa cantina de hospício. Sentiram-se aterrorizados com o que se passava.
- O que significa isso?! – questionou Salazar, esperando uma resposta sincera.
- Acho que é isso mesmo. Nós é que somos loucos! – constatou Pepe.
- Estávamos todos na mesma alucinação? – perguntou Salazar – Isso é possível?
- Não, meus caros... Acho que aquela era a mesma realidade. Essa aqui é que é uma farsa. – afirmou Barganhas.
De fato, aquela verdade os incomodava. Preferiam voltar à inexplicável São Paulo à viver a realidade sombria e exata a que foram apresentados.
- E então? O que faremos? – indagou Barganhas.
Logo entenderam que os drinks eram os líquidos que tomaram e as fritas eram os remédios. Certo ou errado viveram até ali dentro de uma ilusão. Por mais que fosse apenas uma distorção daquela realidade, era mais cômodo quando apenas bebiam e gargalhavam juntos.
- Eu não sei... – disse Salazar – Apenas sei que isso é loucura.


2 comentários:

  1. Temos aqui um marco na literatura fantástica inebriante de alucinações concomitantes que recordam "Durremat" em Os Físicos, texto profundo que nos leva ao mais recôndito canto da alma. sem mais vou pro bar ver se esqueço esta metáfora do tudo e do nada que nos leva ao hospício do mundo real e do irreal mundo do hospício irrealllllllllllllllll.

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    1. Obrigado, Puebla! Vou aí tomar umas contigo! kkkkk'

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